Leishmaniose Canina

2010-1-29

A Leishmaniose Canina é uma doença parasitária grave, causada por um parasita microscópico, de nome Leishmania, transmitida por um insecto pequeno parecido com um mosquito, de nome flebótomo entre cães ou entre cão e homem.

A Leishmaniose é uma zoonose (doença infecciosa transmissível, em condições naturais, dos animais vertebrados ao homem e inversamente), sendo que em Portugal a sua transmissão é rara.

Sobre o flebótomo

O flebótomo (também conhecido como “mosca da areia”),  é o chamado agente vector, pois possibilita a transmissão da doença de cão para cão. É um insecto de pequenas dimensões (2 a 3 mm), em que apenas as fêmeas se alimentam do sangue dos cães.

Após se alimentarem em cães infectados e após um período de desenvolvimento do parasita dentro do tubo digestivo do flebótomo, regurgitam o parasita na corrente sanguínea, quando de uma refeição, infectando assim outro canídeo.
Os flebótomos picam os cães preferencialmente na cabeça (nariz e orelhas).
A sua actividade é essencialmente nocturna, iniciando-se ao entardecer  e até ao amanhecer.

As zonas de areal, zonas ajardinadas ou zonas com lixos e/ou com matéria orgânica são locais óptimos de desenvolvimento destes insectos.
Na região mediterrânica e mais concretamente em Portugal, os flebótomos estão activos nos meses de mais calor, entre Maio e Outubro, dependendo das condições climáticas.


Sobre o ciclo de vida do parasita

No cão, o parasita vive no interior de um tipo especial de células de defesa, os macrófagos, que se encontram nos vários tecidos do organismo.
Quando um flebótomo fêmea pica um cão infectado, recebe as leishmanias através do sangue ingerido. Dentro do tubo digestivo do insecto, os parasitas desenvolvem-se de forma a serem infestantes para o cão. Quando o flebótomo fêmea volta a picar num cão, inocula as leishmanias no novo hospedeiro. As leishmanias infectam os macrófagos do cão e iniciam o processo de multiplicação, permitindo o desenvolvimento da doença, caso o cão não desenvolva atempadamente uma resposta imunitária neutralizante.


Sobre o Diagnóstico

Para o diagnóstico utilizam-se essencialmente técnicas que nos permitem detectar o parasita (parasitológicas) ou detectar a presença de uma resposta imunitária do cão ao parasita. Isto pode ser feito através de uma simples colheita de sangue, que é a forma mais comum, ou ainda em alguns casos através da colheita de material de gânglio linfático ou medula óssea.

Os testes de diagnóstico da leishmaniose devem ser realizados sempre que exista suspeita clínica da doença ou meramente como rotina. Sendo uma doença frequente em Portugal e nomeadamente na região do Algarve, recomenda-se cada vez mais a realização de análises de forma rotineira (anualmente).
Um resultado positivo numa análise à leishmaniose não implica que o animal esteja doente ou que vá desenvolver a doença. O canídeo terá também que realizar um exame clínico complementar que irá ajudar no estabelecimento do diagnóstico final. 

Nem todos os cães que se infectam com leishmanias desenvolvem a doença. A resposta imunitária produzida pelos cães no momento da infecção parece ser um dos factores mais determinantes no desenvolvimento da infecção e na sua progressão de um estádio assintomático para um estádio sintomático.

A susceptibilidade e resistência à infecção por Leishmania parece ter uma base genética, sugerindo-se que as raças de cães autóctones sejam mais resistentes do que as raças de cães exóticas e importadas.

A leishmaniose é normalmente uma doença crónica, cujos sinais clínicos podem desenvolver-se entre 3 meses a 7 anos após a infecção. Regra geral, todos os animais infectados desenvolvem uma  resposta imunitária às leishmanias. Os animais que desenvolvem a doença são aqueles que produzem uma resposta imunitária não-protectora.


Sobre os Sinais Clínicos

Os sinais clínicos mais frequentes são os relacionados com a pele: os cães apresentam perda de pêlo na cabeça (muito comum à volta dos olhos) que  progressivamente se estende a todo o corpo, acompanhada com descamação (caspa), normalmente sem comichão. Muitos animais desenvolvem feridas no nariz e pavilhões auriculares de difícil cicatrização.
Outros sinais clínicos comuns são o crescimento exagerado das unhas, o corrimento sanguínolento nasal, problemas articulares, problemas de olhos ou  o emagrecimento progressivo, apesar de o animal se alimentar bem.

Em situações mais graves (forma visceral da doença), o cão pode vir a desenvolver uma insuficiência renal crónica (IRC), em que existe uma perda de apetite, aumento do volume de ingestão de líquidos e também um aumento da quantidade de urina. Em fases mais avançadas da IRC podem também existir vómitos e diarreia.
A imunossupressão, causada pela própria doença, pode levar à ocorrência de infecções secundárias oportunistas, logo o quadro clínico pode ser complicado por condições como sarna demodécica, dermatite, gastroenterite e pneumonia.

Sobre o Tratamento

O tratamento de um cão com  leishmaniose deve abordar várias vertentes, uma delas é a estabilização do animal, principalmente quando está numa fase avançada e em mau estado geral, muitas vezes devida à IRC ou a outras infecções oportunistas que surgiram devido à imunodepressão,  e outra que passa pelo controlo do parasita no organismo do cão.
No que diz respeito ao controlo do parasita, na maioria das vezes não permite a eliminação da infecção, podendo o animal apresentar recaídas, passados meses ou anos.
 A terapêutica mais utilizada para o controlo do parasita consiste na administração de injecções diárias e de comprimidos ou de uma solução oral. O tratamento é longo, sendo, geralmente, no mínimo de um mês. Após a melhoria clínica, é normalmente necessário que o cão tome comprimidos durante o resto da vida.
As fêmeas devem ser esterilizadas quando estabilizadas, pois durante o cio as suas defesas imunitárias diminuem, podendo originar recaídas.

A Leishmaniose é fatal caso não seja tratada.
Se os donos não optarem pelo tratamento, é obrigatória a eutanásia do animal, (além de causar invariavelmente a morte deste se não for tratado), por questões de saúde pública devido ao potencial zoonótico (transmissão ao homem) da leishmaniose.
Esta obrigatoriedade está comtemplada no Decreto-Lei  nº314/2003 de 17 de Dezembro, que aprova o Programa Nacional de Luta e Vigilância Epidemiológica da Raiva Animal e Outras Zoonoses (PNLVERAZ).

Sobre a Prevenção

A prevenção é a medida mais importante para a saúde do animal uma vez que os tratamentos existentes não permitem eliminar definitivamente a infecção, podendo os animais apresentar racaídas passados meses a anos.
Como actualmente ainda não existe vacina para esta doença, as medidas mais importantes que se podem implementar são:

• Evitar que o cão permaneça no exterior, no período entre o entardecer e o amanhecer;
• Utilização de produtos que de alguma forma possam repelir o flebótomo e assim evitar que este possa picar, como é o caso de algumas coleiras e spot-on’s (pipetas);
• Manter o cão num bom estado de saúde, vacinado, desparasitado e bem alimentado. Esta é uma forma de manter um sistema imunitário forte;
• Todos os animais doentes, em tratamento, ou que tenham recuperado de um episódio da doença, também devem ser protegidos das picadas dos insectos. Existem estudos que comprovam que em animais doentes e nos quais foram colocados coleiras protectoras, os sinais clínicos são em menor número e evoluem mais lentamente;
• Efectuar rastreios regulares da leishmaniose. Isto pode permitir um diagnóstico mais precoce e logo um tratamento mais efectivo.


Considerações finais

Tal como nos cães, no homem a leishmaniose visceral é fatal, caso não seja tratada. No entanto, no homem, o tratamento tem uma taxa de sucesso superior. A população humana com maior risco de contraír a doença, é a que apresenta problemas ao nível do sistema imunitário.
A transmissão do cão ao homem, faz-se sempre por intermédio do flebótomo. A doença não se transmite por mero contacto ou proximidade física. 
O abandono de cães constitui um risco acrescido para o aumento da prevalência e propagação da Leishmaniose. Estes animais errantes não têm vigilância sanitária e estão geralmente mais susceptíveis às infecções, aumentado assim o risco para saúde pública.

Não esqueça: Em caso de dúvida ou suspeita contacte o seu Médico Veterinário.

Fonte: On-Leish (www.on-leish.org) e Scalibor (www.scalibor.pt)